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quinta-feira, 26 de março de 2009

É por estas e por outras que tenho de parar de perder autocarros

Está a ver, caro leitor, aquela felicidade com que ficamos quando acordamos super-cedo e sabemos que temos um longo dia de trabalho pela frente? Pronto, era isso mesmo que estava a sentir, misturado com sono, naquela manhã em que tentava cumprir com a minha rotina (é ela: acordar a horas indecentes, perder o autocarro e perder o autocarro a seguir àquele que perdi).
Calhava mesmo bem um cafezinho. Como acabara de chegar à paragem uma senhora com cara de quem ia apanhar o autocarro, e como a minha vontade de tomar café só seria satisfeita caso fosse esclarecida a minha dúvida em relação à hora certa do bus, decidi sacar-lhe informações.
Começei com um "Olhe, a senhora descul..." mas fui interrompida por um forte "Ai! Nem tava-ta conhecer! Dá cá dois beijinhos.". E eu dei. Forçada, mas dei. Foram apenas dois segundos de estupefacção, mas com a quantidade de interrogações e caracteres esquisitos que me passaram pela cabeça podia muito bem ter passado muito mais tempo. Foi com enorme cautela que ponderei sobre o dilema de continuar ou não, afinal de contas, com o que ia perguntar. Era gigante a probabilidade de, se pedisse a tal informação, a pobre senhora se aperceber da estupidez da situação e de, por conseguinte, se sentir extremamente ridícula. Eu, pelo menos, sentir-me-ia assim.
Foi então que me dei conta de que seria muita giro se continuasse. E continuei: "A senhora por acaso não sabe a hora certa do autocarro, não?". Foi a melhor coisa que podia ter feito porque, numa espécie de dois em um, consegui sacar-lhe a informação e também contribuir, espero eu, para que alguém, para além de mim, se sentisse parvo. Gostei.
Apesar de tudo, talvez transforme esta técnica de fingir que se conhece gente que na realidade não se conhece numa coisa divertida: a partir de agora, cada vez que alguém desconhecido vier ter comigo a querer sacar informações, vou fingir que o conheço. Pode ser que me paguem um copo, ou assim.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Isto é uma ameaça

Venho por este meio ameaçar de morte todas aquelas pessoas que insistem em utilizar a expressão "doce de pessoa" sem ser num contexto culinário. É de mim, ou um doce de pessoa é algo que está ou devia estar naquela parte das sobremesas num menu dum restaurante? O que me passa pela cabeça quando oiço "doce de pessoa" é a imagem de mim mesma a folhear um livro de receitas - não que eu tenha por hábito folhear livros de receitas - e encontrar na página 84 o seguinte:



Doce de Pessoa

Ingredientes:
- 2 kg de pessoa
- 1,6 kg de açucar
- 4 dl de água
Preparação:
Lava-se a
pessoa, tira-se-lhes os pés, escorre-se e enxuga-se muito bem com um pano para
retirar o excesso de água. Ferve-se o açúcar com a água até atingir o ponto de
espardana. Deita-se a pessoa, que se deixa ferver em lume brando até fazer
ponto, não muito alto porque o doce fica endurecido.


N.B. Também se pode deitar algumas gotas de limão
quando sai do lume.
Quando não me passa isto pela cabeça quando oiço a tal expressão, é porque me ocorreu primeiro a imagem de mim mesma na cozinha a abrir as portas do armário onde se encontra um conjunto de potezinhos, cada qual com a sua etiqueta: "Doce de Morango", "Doce de Laranja", "Doce de Framboesa", "Doce de Pessoa"...
É, portanto, a não ser que seja canibal, absolutamente proibido dizer ou pensar que o fulano tal é um doce de pessoa.

terça-feira, 17 de março de 2009

Proibido ir ao WC (A não ser que seja estúpido ao ponto de pagar por isso)

Não sou grande adepta da televisão, só que ainda sofro daquele problema em que, de repente, não tenho nada para fazer e em que acabo por, num acto de enorme desespero, carregar naquele botão parvo que normalmente diz, ou quer dizer, on.
Aconteceu outra vez, e talvez não fizesse tão mal já que àquela hora era o Telejornal que estava no ar. Mas fez. E há coisas em relação às quais uma pessoa prefere permanecer na ignorância e, sinceramente, preferia não ter conhecimento do facto de agora ter de pagar para utilizar uma casa-de-banho, caso me encontre num avião. Mas já que sei disto, pergunto-me: quem será o idiota de quem partiu esta brilhante ideia? E, indo mais longe, coloco ainda a questão: como é que eu nunca tive essa ideia?Para já, posso afirmar seguramente que este indivíduo, cujas ideias me fazem crer que é um génio, é um artista. Aprendi na faculdade que um artista é aquele que pensa no que não foi pensado. Aprendi também que nós, as pessoas, temos a mania de desvalorizar as obras do dito artista ao pensarmos "Ah! Grande coisa, até eu fazia isso.". O certo é que, sim senhora, fazíamos, mas não fizemos, sendo isto o que nos distingue do artista.
Quero acreditar que sou, neste momento, o que vem dar mais credibilidade ao parágrafo anterior, uma vez que tenho a mania que aquela ideia podia muito bem ter partido de mim. Por acaso podia. Mas não tive a rapidez e eficácia suficientes para a ter primeiro.
Os tempos que correm obrigam-me a, mais uma vez, tocar no assunto da crise. E que altura melhor que não a de crise para nos aproveitarmos de tudo e mais alguma coisa para ganhar dinheiro?
É, na minha opinião, um bom começo: agarrar nas necessidades fisiológicas das pessoas e fazê-las pagar por isso. Genial! É que uma pessoa, por mais que tente, não consegue aguentar muito tempo o xixi e/ou o cocó sem começar em verdadeiro sofrimento (Note que, já que é a minha opinião, falo segundo a minha própria experiência). E estando lá em cima, estamos sob muito mais pressão - nos vários sentidos da expressão. É, de facto, genial.
De momento, estou a pensar seriamente em lançar o boato de que isto partiu de um qualquer funcionário, talvez hospedeiro, da Ryanair cujo hobbie é ser dono de uma marca qualquer de fármacos daqueles que provocam o efeito exactamente contrário do laxante. Nem consigo imaginar o dinheiro que esta pessoa vai ganhar com tanta gente a tentar conter-se nas viagens de avião. Este boato que estou a lançar a partir de... Agora!... Faz todo o sentido e, já agora, admito que sempre quis conhecer a sensação de começar um.
Resta-me enfim aplaudir esta mente brilhante. Se pagamos, normalmente, para a comida entrar*, porque é que havemos de não pagar para a mesma sair?


*(ao comprá-la)

quinta-feira, 12 de março de 2009

Como é que se vai para Óbidos?







Foi num daqueles ataques de loucura que decidimos meter-nos no carro e viajar. Sabe-se lá para onde. Queríamos praia, e qual o melhor lugar para isso senão um dos únicos sítios de Portugal que não tem praia? Foi então que aconteceu. Estávamos a caminho de Óbidos e foi na estrada nacional, algures entre Coruche e Montemor-o-Novo, que decidimos aperceber-nos de que Óbidos não era para ali; estávamos, afinal, a caminho do Alentejo.
"Seja.", pensámos, tenho a certeza, os cinco em simultâneo.
E lá íamos nós, todos cheios de felicidade e coisas assim do género na tola, desta vez com o intuito de parar em Évora. Mas acabámos de jantar e lembrámo-nos de que o que queríamos era praia. Agarrou-se no carro e partiu-se, supostamente, em direcção a Óbidos.
Seguindo à mesma pela nacional, chegámos finalmente a Setúbal. Setúbal?
"- Elá, isto aqui tem Tróia! Tróia é tão fixe, é tipo Las Vegas (...) vamos ao casino (...) quero jogar bowling (...) Nem sequer se paga os autocarros, que fino!"
Navegámos até à ilha, quais Piratas das Caraíbas, mas o nosso paraíso cheio de gajas boas e casinos transformou-se numa ilha deserta. Habitada apenas por gatos-zombies. E um cão. Talvez zombie. Por falar em zombie:
"- Não era para Óbidos que queríamos ir? (...) Eia pois é! Vamos lá, colegas! São quatro da manhã e vamos percorrer um terço de Portugal porque nos lembrámos que afinal estávamos a caminho de Óbidos, quando saímos de casa às 5 da tarde."
E lá seguimos nós, ainda pela nacional, a caminho de Óbidos. Demos por nós em Almada, em contra-mão numa faixa onde apenas autocarros podem passar. Almada - Lisboa. Lisboa - Santarém. Santarém - Tenho fome. McDonalds. Está fechado? Então sigamos para Torres Novas, são quase seis da manhã mas temos fome e vamos andar mais não sei quantos mil quilómetros para aconchegar o malandro do nosso estômago.
Chegada a Torres Novas. Seis e tal da manhã. "Malta! O Mac não fechava às seis? (...) Olha pois fechava. Vamos embora então."


Por favor, alguém me diz para que lado é que fica Óbidos?