Está a ver, caro leitor, aquela felicidade com que ficamos quando acordamos super-cedo e sabemos que temos um longo dia de trabalho pela frente? Pronto, era isso mesmo que estava a sentir, misturado com sono, naquela manhã em que tentava cumprir com a minha rotina (é ela: acordar a horas indecentes, perder o autocarro e perder o autocarro a seguir àquele que perdi).
Calhava mesmo bem um cafezinho. Como acabara de chegar à paragem uma senhora com cara de quem ia apanhar o autocarro, e como a minha vontade de tomar café só seria satisfeita caso fosse esclarecida a minha dúvida em relação à hora certa do bus, decidi sacar-lhe informações.
Começei com um "Olhe, a senhora descul..." mas fui interrompida por um forte "Ai! Nem tava-ta conhecer! Dá cá dois beijinhos.". E eu dei. Forçada, mas dei. Foram apenas dois segundos de estupefacção, mas com a quantidade de interrogações e caracteres esquisitos que me passaram pela cabeça podia muito bem ter passado muito mais tempo. Foi com enorme cautela que ponderei sobre o dilema de continuar ou não, afinal de contas, com o que ia perguntar. Era gigante a probabilidade de, se pedisse a tal informação, a pobre senhora se aperceber da estupidez da situação e de, por conseguinte, se sentir extremamente ridícula. Eu, pelo menos, sentir-me-ia assim.
Foi então que me dei conta de que seria muita giro se continuasse. E continuei: "A senhora por acaso não sabe a hora certa do autocarro, não?". Foi a melhor coisa que podia ter feito porque, numa espécie de dois em um, consegui sacar-lhe a informação e também contribuir, espero eu, para que alguém, para além de mim, se sentisse parvo. Gostei.
Apesar de tudo, talvez transforme esta técnica de fingir que se conhece gente que na realidade não se conhece numa coisa divertida: a partir de agora, cada vez que alguém desconhecido vier ter comigo a querer sacar informações, vou fingir que o conheço. Pode ser que me paguem um copo, ou assim.