Pages

quinta-feira, 9 de abril de 2009

Saudinha

Ora bem, corrija-me se estiver errada, mas parece-me que agora, quando adoecer, posso escolher entre o ser bem tratada e o ser mais ou menos bem tratada.Tive mais um daqueles ataques de loucura, e cometi uma vez mais aquele erro de dar atenção ao que passava na TV. Por um lado até é bom, pelo menos para mim, que haja em Portugal situações ridículas como esta: caso contrário não teria assunto para escrever neste blogue. E eu, que até gosto de me rir de vez em quando, vou pensando nestas coisas. E rio-me.
Até agora, uma pessoa carregava consigo o peso da decisão: morrer à fome por ter comprado os medicamentos de que precisava VS morrer por não ter comprado os medicamentos para poder comer. Mas agora tudo está resolvido.
Pelo que percebi, de agora em diante, o, chamemos-lhe assim, cliente está doente, vai ao médico, vai ser tratado e, para tal, o médico receita-lhe medicamentos. Normalíssimo. A novidade aqui é que, como a gente anda sem dinheiro por causa da crise (tenho de começar a anotar as vezes que "a" menciono aqui. Começa a tornar-se hábito.), podemos escolher o medicamento que se adapta melhor ao nosso bolso. Ponho-me aqui a imaginar, e o que me sai é qualquer coisa como:

- Boa tarde!
- Boa tarde! Como está?
- Olhe, cá vou indo, tirando esta infecçãozinha no pâncreas... Mas não há-de ser nada. Por falar nisso, venho aqui buscar uma coisa para me tratar.
- Passe pra cá a receita.
- Tome. [Silêncio] O Sr. farmacêutico por acaso não tem aí algo que me fique mais em
conta, não? É que ainda só vamos a 15 e não dava muito jeito ficar sem comer até ao fim do mês, sabe?
- Olhe, por acaso até tenho. Está aqui este Manipulan*, custa X; se for bem tomadinho daqui a uns 5, 6 dias está aí rijo que nem um pêro. Também temos aqui este que, como é mais barato, é capaz de demorar mais uns diazitos, mas deve fazer efeito à mesma. Qual é que vai querer?
- Olhe, lá vai ter de ser esse. E não tem aí nenhuma marca comprimidos para o coração diferente da do costume? É que também preciso de levar para a minha esposa, mas para esses não tenho mesmo dinheiro.
- Tenho sim, senhor! Tome lá estes, custam mais de metade do preço dos outros, se calhar é capaz de fazer só metade do efeito, mas o que interessa é que possa pagar!
- Obrigado. Saudinha.

E eis a palavra-chave deste artigo: saudinha. Mantenha a sua saudinha. É que, tal como o caviar e outras coisas assim que são só para quem pode, nos dias de hoje não nos podemos dar ao luxo de adoecer.



*Manipulan foi um nome que inventei para um possível medicamento. Espero bem que não exista.

2 comentários: